Você recebe uma mensagem no WhatsApp. Do outro lado, alguém diz ser advogado, cita o número do seu processo, conhece seus dados e avisa: saiu uma quantia a receber, mas antes é preciso pagar uma taxa. Parece real — e é exatamente esse o problema. O chamado "golpe do falso advogado" já causou prejuízo de R$ 2,8 bilhões em três anos no Brasil, segundo reportagem do Fantástico, e continua fazendo vítimas todos os dias.
A boa notícia é que você não precisa ser especialista em tecnologia nem em direito para se proteger. Com alguns cuidados simples, dá para confirmar se o advogado é de verdade antes de tomar qualquer decisão que envolva dinheiro ou documentos. Este guia foi escrito em linguagem direta, para qualquer pessoa entender e aplicar.
Como funciona o golpe do falso advogado
Entender o golpe é o primeiro passo para não cair nele. Os criminosos se aproveitam de uma informação pública: hoje quase todos os processos são eletrônicos, e muitos dados das partes — como nome, telefone e o próprio andamento do caso — ficam acessíveis. Com isso, o golpista monta um contato extremamente convincente.
O roteiro costuma ser assim:
- Ele te encontra pelo WhatsApp — cerca de 9 em cada 10 golpes desse tipo acontecem por aplicativos de mensagem.
- Usa foto, nome e até o número da OAB de um advogado real, copiados da internet.
- Cita dados verdadeiros do seu processo, o que passa uma falsa sensação de segurança.
- Anuncia uma boa notícia (uma indenização, um alvará, um valor liberado) e, em seguida, pede um pagamento adiantado: uma "taxa", "custas" ou "imposto" para liberar o dinheiro.
Veja um exemplo real de como isso costuma acontecer. Dona Maria tem uma ação trabalhista em andamento. Um dia, recebe uma mensagem de um número desconhecido: "Bom dia, sou o Dr. Paulo, seu advogado. Saiu o alvará da sua ação, no valor de R$ 18 mil. Para liberar, o banco cobra uma taxa de R$ 450, que precisa ser paga hoje por Pix." A mensagem tem o nome do advogado, cita o valor certo e passa urgência. Dona Maria, animada com o dinheiro, quase paga. O que a salvou foi ligar para o telefone do escritório que estava no contrato — e descobrir que o Dr. Paulo nunca enviou aquela mensagem. Esse roteiro se repete milhares de vezes, mudando apenas os nomes e os valores.
Sinais de alerta: quando desconfiar
Nem todo contato é golpe, claro. Mas alguns sinais devem acender a luz amarela imediatamente:
- Pressa e urgência. "É só hoje", "o prazo vence em uma hora", "precisa pagar agora". Golpistas odeiam que você pense com calma.
- Pedido de pagamento por Pix, especialmente para conta de pessoa física ou de terceiro que não é o escritório.
- Número de telefone diferente do que você já conhecia, ainda que o nome e a foto sejam os mesmos.
- Contato inesperado sobre um valor que você nem sabia que tinha a receber.
- Nervosismo quando você diz que vai confirmar. Advogado de verdade não se incomoda em ser verificado; golpista, sim.
Como confirmar se o advogado é de verdade
Aqui está o coração deste guia. Se você tem qualquer dúvida, use um ou mais dos caminhos abaixo antes de fazer o que a pessoa pediu.
1. Consulte o registro na OAB. Todo advogado tem um número de inscrição na Ordem dos Advogados do Brasil. Você pode conferir no Cadastro Nacional dos Advogados (CNA), em cna.oab.org.br, informando o número e o estado. Ali você vê se o registro existe e a quem pertence.
2. Use o ConfirmADV, a ferramenta oficial da OAB. A OAB criou uma plataforma gratuita, o ConfirmADV, justamente para o cidadão validar a identidade de um advogado. Você informa o número da OAB, o estado e o e-mail do profissional, e o sistema envia um pedido de confirmação ao advogado, que tem alguns minutos para responder.
3. Ligue pelo canal que você já conhece. Não use o número que chegou na mensagem suspeita. Procure o telefone oficial do escritório — no site, no contrato que você assinou ou no cartão — e ligue diretamente para perguntar se aquele contato é legítimo.
4. Peça um código de confirmação. Alguns escritórios já usam ferramentas como o Confirma.legal, em que você mesmo gera um código de segurança e pede que o advogado confirme o mesmo código. Se a pessoa não conseguir confirmar, é golpe. É simples, rápido e não exige que você instale nada. Reunimos boas práticas sobre isso no guia de verificação de identidade.
Você não precisa usar todos os caminhos — mas usar pelo menos um, antes de qualquer pagamento, já elimina a enorme maioria dos golpes.
Uma dica extra: combine com o seu advogado, logo no início, qual será o canal oficial de contato. Deixe claro que qualquer mensagem de número novo pedindo dinheiro será tratada como suspeita até ser confirmada. Esse acordo simples, feito quando ainda não há nenhum problema, funciona como uma "senha" entre vocês e tira o poder do golpista, que depende justamente de você não ter um jeito combinado de checar.
Nunca faça isso antes de confirmar
Alguns cuidados são inegociáveis. Enquanto você não tiver certeza de que está falando com o advogado certo, não faça nada da lista abaixo:
- Não faça Pix, transferência ou pagamento de "taxas" para liberar valores.
- Não envie documentos pessoais (RG, CPF, comprovantes) por mensagem.
- Não compartilhe senhas, códigos recebidos por SMS ou dados bancários.
- Não clique em links de "pagamento" enviados pela conversa.
O que fazer se você já caiu no golpe
Se você pagou ou enviou dados e depois percebeu que era golpe, não perca tempo com vergonha — aja rápido, porque as primeiras horas são as mais importantes:
1. Contate seu banco imediatamente. No caso de Pix, peça o Mecanismo Especial de Devolução (MED); há chance de recuperar o valor se você agir cedo.
2. Registre um boletim de ocorrência. Pode ser feito online na delegacia eletrônica do seu estado. Guarde prints de toda a conversa.
3. Avise o advogado ou escritório verdadeiro. Ele precisa saber que estão usando o nome dele e pode alertar outros clientes.
4. Comunique a OAB. A Ordem acompanha esses casos e mantém campanhas de combate ao golpe.
Reunir provas (prints, números de telefone, comprovantes) ajuda tanto na tentativa de recuperar o dinheiro quanto na investigação.
E não se culpe. Esses golpes são construídos por quadrilhas especializadas, que usam dados reais e técnicas de manipulação para enganar até pessoas atentas e experientes. Cair no golpe não significa que você foi ingênuo — significa que o criminoso foi habilidoso. O mais importante agora é agir rápido e transformar a experiência em alerta: avise familiares e amigos, principalmente os mais velhos, que costumam ser os alvos preferidos. Quanto mais gente souber como o golpe funciona, menos vítimas os criminosos conseguem fazer.
Confirmar antes de confiar é um direito seu
Talvez o ponto mais importante deste guia seja este: pedir para confirmar a identidade de alguém não é falta de educação nem desconfiança ofensiva. É o seu direito. Bancos confirmam sua identidade o tempo todo; a Justiça passou a exigir camadas extras de segurança; e você também pode — e deve — confirmar quem está do outro lado antes de decidir algo importante.
Um bom profissional vai valorizar esse cuidado. Se um suposto advogado reage mal quando você diz que vai verificar, isso por si só já é um sinal. A confiança é a base da relação entre cliente e advogado, e ela começa com a certeza de que você está mesmo falando com a pessoa certa.
Na dúvida, pare, respire e confirme. Poucos minutos de verificação podem proteger o seu dinheiro, os seus documentos e a sua tranquilidade. E se o seu escritório oferece uma forma simples de confirmação, como o Confirma.legal, use sem receio: ela existe exatamente para te proteger.